CORPO-DIÁRIO n. 1: A vida não cabe nas palavras, nem no canvas

"se as palavras, em vez de serem consideradas apenas pelo que dizem gramaticalmente falando, forem ouvidas sob seu ângulo sonoro, forem percebidas como movimentos, [...] a linguagem da literatura se recomporá, se tornará viva" (A. Artaud, carta a Jean Paulhan, 28/05/1933)


No dia 13 de Setembro de 2022 participei do MIRADA - FESTIVAL IBEROAMERICANO DE ARTES CÊNICAS (Sesc Santos) com a performance SEM FIM, em que durante 5 horas escrevo e danço em fluxo num espaço que se desdobra em camadas infinitas de sentido. Essa ação aconteceu em meio a um “turbilhão” de textos, desenhos e pensamentos de Antonin Artaud: a exposição Theatrumcorpusmundi, de curadoria de Christine Greiner e Ricardo Muniz Fernandes e o lançamento do livro Artaud: pensamento e corpo, do filósofo Japonês Kunichi Uno pela editora N-1.


SEM FIM, performance, Mirada Festival Ibero-americano de Artes Cênicas, SESC SANTOS 2022. Foto: César Meneghetti.


Kuniichi é autor de duas outras obras que são quase uma leitura diária ou treino para mim: A GÊNESE DE UM CORPO DESCONHECIDO (N-1, 2014) e TATSUMI HIJIKATA: pensar um corpo esgotado (N-1, 2018). Aprender a lidar com uma realidade física que é sempre desconhecida, sendo sempre a mesma. Conviver com um corpo que se esgota e se renova repetidamente numa linha de tempo que passa. Foi em 2020, na data da minha defesa de tese de Doutorado intitulada O CORPO E OS SEUS (MEUS) VESTÍGIOS (orientação Priscila Arantes) que Christine Greiner, então na banca de avaliação, me falou que estava trabalhando na tradução de um novo livro do autor Japonês sobre Antonin Artaud...


Desde 2011, com o trabalho HERE AND THERE [OR SOMEWHERE INBETWEEN] (vídeo, instalação, performance, Radialsystem Berlin, 2011) e outros que seguiram como a série de DIÁRIOS DE UM MINUTO (vídeo, Festival Verbo/Galeria Vermelho, 2015) e as performances CAIXA DE MÚSICA (Paço das Artes SP, Studio Stefania Miscetti Roma, 2017, Festival Lux de performances SP, 2022) e CORPO AUSENTE (CLAREIRA, MAC-USP, 2021), minha pesquisa tem abordado o texto escrito e falado sob uma perspectiva diversa de criação de sentido: o texto como imagem, o texto como som, o texto como movimento ou gesto, o texto como desenho, o texto como roupagem ou pele. O foco não é exatamente o que se escreve mas também como se escreve e o quê o escrever gera no mundo do compreensível-sensível.


Inicialmente, quando fiz essa ação de escrever com o corpo todo em plataformas de grande dimensão, foi num espaço fechado: uma "caixa".


CAIXA DE MÚSICA, performance, 2018, Studio Stefania Miscetti, Roma


E não por acaso a performance se chamava CAIXA DE MÚSICA. Talvez porque tratava de um feminino sofrente, uma mulher enclausurada num espaço limitado de expressão e que escreve e reescreve todo o turbilhão de pensamentos e sentimentos reprimidos no corpo. Talvez porque o meu corpo naquele momento foi mergulhado em experiências repetidas de dor e perdas e o escrever e o dançar sobre este chão tenham sido caminhos para “suavizar” o impacto. Conforme escreve Paula Braga sobre a minha individual INSCRIPTURA (Temporada de Projetos do Paço das Artes, SP, 2017): “Da escrita aos gestos, o ponto comum é a suavidade que tenta evitar a dor física. O pulso não aguenta forçar o carvão no canvas, precisa aprender a fazer a letra cursiva fluir para não doer de tanto chegar no pensamento puro”.


SEM FIM é mais uma (grande) expansão dessa prática de escrita do corpo. Mas com algumas diferenças essenciais. Nessa ação prolongada no tempo, o lugar metaforicamente infinito que se cria no espaço (e incluo nesse conceito de lugar as pessoas que passavam, os acontecimentos, os escritos de Artaud na instalação, os sons, as luzes, o vento...) apagou essas travas e limites. Eu não estava numa caixa mas numa horizontalidade estendida.


SEM FIM, performance, Mirada Festival Ibero-americano de Artes Cênicas, SESC SANTOS 2022. Foto: César Meneghetti.


Talvez a experiência, a idade, a repetição, o aprender a lidar com as transformações... No meu corpo agora assumidamente desconhecido, não tinha nada reprimido, só fluido. Um repetir de esgotamentos e renascimentos. Nem as palavras, nem a linguagem, nem o canvas, nem a pele ou a respiração foram limites para o sentir-pensar mas meios dele. Instrumentos de canalização do material subjetivo para outra dimensão em que os contornos do eu se pulverizam e prolongam no que é outro e no espaço. Para terminar, empresto novamente as palavras de Paula Braga: “contra essa dor: tentar outra vez, falhar outra vez, falhar melhor. Escrever, dançar nas palavras, escrever por cima”.








4 visualizações0 comentário
Christina Elias
escrever o corpo